E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando A Sua Fuga, Cavando O Chão Com As Próprias Unhas

by Jair Naves

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released September 18, 2012

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Track Name: Pronto Para Morrer (O Poder de Uma Mentira Dita Mil Vezes)
Letra e música: Jair Naves

Eu sou um homem, não um menino
certas coisas eu não admito
carrego um desejo de vingança reprimido

Desde que na minha casa entrou um estranho
que encostou uma arma pro meu crânio
e eu nada pude fazer
a não ser me ver balbuciando
febrilmente, implorando:
"eu não estou pronto pra morrer"

Cada um tem que enfrentar o seu carma
pagar por uma escolha errada
comigo não é diferente

Minha baixa escolaridade
é um espetáculo à parte
eu sei que pode te entreter
já que você vê comicidade
em tanta desigualdade
o que, pra mim, é novidade
mas eu evito esse debate
pois seguiremos nesse impasse
mesmo depois que eu morrer

Toda cidade tem a sua aberração
uma criatura habituada à humilhação
para quem não existe chance de redenção

Eu me lembro de um aspirante a padre
que aos quinze anos de idade
teve que se defender
de uma afronta à sua masculinidade
que nem sequer era verdade
ou, se era, era só em parte
de resto, era só maldade
mas não houve quem não acreditasse
Então, segundo me contou Linari,
logo ocorreu um embate
quando numa certa tarde
de porta em porta, o coroinha bate
e anuncia com voz grave
se fazendo ouvir, sem muito alarde:
"estejam prontos para morrer"

Nem é preciso comentar
eu me contento em ressaltar
o poder de uma mentira dita mil vezes

O desespero me invade
um choro em meu rosto arde
mas eu não posso me deixar abater
mesmo com o coração partido
amargamente desiludido
eu preservo a gana de vencer

Me esconde onde não me achem
onde qualquer ruído se abafe
não me deixa enlouquecer
Me beija com vontade,
me demonstra lealdade
para mim, isso é o que vale
E se esse amor for de verdade,
eu estarei pronto para morrer
Track Name: Poucas Palavras Bastam
Letra e música: Jair Naves

Ainda persiste uma dúvida
que eu talvez nunca vá esclarecer
Ainda persiste uma dúvida
que eu não me canso de remoer
Só que é o tipo de coisa de que não se fala em hipótese alguma
Poucas palavras bastam para que eu nem queira sair à rua

Se a sua consciência é muda, a minha fala alto demais
E vai impedir que eu durma se um dia eu fizer o que você faz

"Tanto potencial desperdiçado", você lamentou em um suspiro
com ar de superioridade, como quem orienta um filho
É nesse ponto da história que fica evidente quais são as condições:
ou você cede as rédeas, ou morre com suas convicções

Mas se a sua consciência é muda, a minha fala alto demais
E vai impedir que eu durma se um dia eu fizer o que você faz
Não é que eu seja um santo, mas para tudo há um limite
Paralisado de espanto, eu te vejo ir onde não se permite
Track Name: No Fim Da Ladeira, Entre Vielas Tortuosas
Letra e música: Jair Naves



Vem até mim um senhor de fala lenta

diz que bebendo assim eu nem chego aos quarenta

Teima que sabe bem o que deixa um homem no estado em que eu estou

e me alerta que a auto-piedade é a seqüela mais comum do amor



Eu nem ouso discordar

Esse esteve em meu lugar



Então eu desabafo, peço conselhos

ganho a simpatia dos outros bêbados

Fico elaborando teorias

tentando esgotar o assunto e seguir em frente a minha rotina



Eu só queria poder

me redimir com você



Acho que eu te deixei assustada,

eu agi da forma mais errada

Aquele triste homem intimidado

agora luta pra se manter afastado

e não te incomodar



Me diz quando parar

(onde é que eu vou parar?)



No fim da ladeira, entre vielas tortuosas,

há uma vila de casinhas silenciosas

Numa manhã fria, eu saí de uma delas

convencido de que ali eu havia achado a pessoa certa



Agora dói passar perto daquele lugar



Acho que eu te deixei assustada,

eu falei alguma coisa errada

Um nervosismo incontrolável

agora eu luto pra me manter afastado

e não te incomodar



Me diz quando parar

(onde é que eu vou parar?)



Acontece que eu ainda enxergo em ti

tudo de que eu mais me orgulho em mim

Como um pássaro ruidoso ao ver a luz do amanhecer

eu não pude me conter



Me desculpa se eu te deixei assustada,

se eu disse alguma coisa muito errada

Mas eu nunca fui de pecar pela omissão

ou de ignorar o meu coração



Não vá se afastar
Track Name: Maria Lúcia, Santa Cecília e Eu
Música: Alexandre Xavier e Jair Naves
Letra: Jair Naves

Você sabe
tão bem quanto eu
ninguém pode
dar amor se nunca o recebeu
Ah, tão sem jeito
Ah, tão sem jeito
Ah, tão ruim

E é frustrante
não poder mostrar
como eu me sinto
por receio de te afugentar
Ah, tão sem jeito
Ah, tão sem jeito
Ah, tão ruim

Ontem eu adoeci de tão preocupado
envolto em um suor espesso e gelado
me sentindo ingênuo
e despreparado
para lidar com o mundo lá fora

Maria Lúcia riu:
"filho, você só precisa
do seu violão
e da sua imagem de Santa Cecília
para ser alguém na vida,
para honrar a sua família,
para me deixar orgulhosa"

E o quanto isso me acalma
você nem desconfia
Meu porto seguro,
minha mãe, minha pessoa preferida
Então que eu seja alguém na vida,
que eu honre a minha família,
que eu a deixe orgulhosa

Pois eu te digo que o meu maior temor
é que quando a minha mãe se for
ela vá intranqüila,
sem a sensação
de partir com a sua missão cumprida

Com o tempo, eu criei
meu próprio conceito de Deus
o que talvez me torne
um tipo raro e estranho de ateu
Ah, tão sem jeito
ah, tão sem jeito
mas assim que é pra mim

O que eu busco é alguma garantia
de que existe algo além dessa vida,
de que a morte não é tão definitiva
e sim uma breve despedida
Track Name: Carmem, Todos Falam Por Você
Letra e música: Jair Naves



Eu desconheço

exemplo mais eficaz

do que uma criação

inadequada é capaz

Eis que alisam a sua cabeça

e reforçam a certeza

de que tudo é uma conspiração

feita contra você



A platéia entregue

e o primeiro aplauso é meu

para o personagem hostil

que nunca me convenceu

Mas eu aplaudo mesmo assim

porque o mundo inteiro há de aplaudir

sempre a começar por mim



Carmem, eu nunca admiti

mas eu me transformei quando eu te conheci

Eu soube que você engravidou

de um estrangeiro e se mudou

Sem ressentimentos,

nada contra você



A platéia entregue

e o primeiro aplauso é meu

para o personagem hostil

que nunca me convenceu

Mas eu aplaudo mesmo assim

porque o mundo inteiro há de aplaudir

sempre a começar por mim
Track Name: Guilhotinesco
Letra e música: Jair Naves



Eu fui temente a Deus

que se manifestou

sempre a meu favor

Mesmo nos dias em que eu me arrastei

como por provação

sem nem distinguir

meu corpo do chão



Se eu me vejo embrutecido,

vivendo sem ilusões

Eu me sinto agradecido

por enfim ter aprendido

a mais dura das lições

Foi um beijo umedecido,

guilhotinesco e fatal



Meu peito acolhe um berro contido

a que eu não suportaria dar vazão

Um grunhido primal, grave e aflito,

como o som dos surdos quando gritam,

amplificado pela solidão

Foi um beijo umedecido,

guilhotinesco e fatal
Track Name: Vida Com V Maiúsculo, Vida Com V Minúsculo
Letra e música: Jair Naves



Tão tarde eu fui dormir,

tão cedo eu acordei,

um desapego imenso



Pela manhã,

aviões traiçoeiros que teimam em ameaçar cair

trarão seus modos tirânicos até aqui

E eu não caibo em mim

de contentamento



Eu não vejo em mim nenhum medo,

não existe em mim nenhum medo



Quando eu era menor,

eu me perguntava como deveria ser

a vida em uma dessas casas à beira da estrada

tristes e isoladas



Acho que agora eu sei

pelo vazio com que eu convivo há tanto tempo



Eu não vejo em mim nenhum medo,

não existe em mim nenhum medo



Por uma intervenção divina, por uma devoção desobediente



Eu não vejo em mim nenhum medo,

não existe em mim nenhum medo



Quilométrico é o sorriso que explode ensurdecedoramente



Eu não vejo em mim nenhum medo

e não existe em mim nenhum medo
Track Name: Covil de Cobras
Música: Jair Naves e Renato Ribeiro

Letra: Jair Naves



É um covil de cobras,

recusa a oferta e diz que pra ti isso é esmola

Não se apavora

enquanto eu estiver na sua escolta



Que seja só eu contra mil

Tamanha frieza ninguém nunca viu



Surge um europeu deslumbrado

com delírios de colonizador

quinhentos anos atrasado

agora eu tenho com quem me indispor



Eis a prova

de que Maria Antonieta fez escola

Só me acorda

quando a classe operária for à forra



Que seja só eu contra mil

Tamanha frieza ninguém nunca viu



Tremendo de entusiasmo,

eu disse "eu te amo" assim que você me tocou

Incrédulo e afobado,

meu desejo improvável se realizou

E essa cena sempre me volta

quando eu quero fugir da jaula em que eu estou

a minha memória mais preciosa,

o pouco de doçura que me restou

a minha memória mais preciosa,

refúgio pro cinismo que me tomou



A minha alma

se esvaiu de mim

eu nem senti, eu nem senti

Sem me dar conta, irremediavelmente eu me perdi

eu nem senti, eu nem senti

Quando a minha alma se esvaiu de mim

eu nem senti, eu nem senti

Pra mim, tudo mudou
quando começaram a me chamar de senhor

E eu me atentei tardiamente
que a juventude se vai tão de repente,
que eu não vou viver eternamente
Track Name: A Meu Ver
Letra e música: Jair Naves


A meu ver, é um sacrifício

sem a menor razão de ser

Passos certeiros rumo a um abismo,

mas quem sou eu para querer mudar você?


As pessoas vêm e vão,

hoje eu tenho essa convicção



Se é que você ainda me dá ouvidos,

devo dizer que eu não fracassei

Como nós sempre competimos,

eu achei que você devia ser a primeira a saber



As pessoas vêm e vão

hoje eu tenho essa convicção



Mas a muito custo eu aprendi

que não pode ser cada um por si



A meu ver, seria um castigo

se eu não voltasse a ter você

A meu ver, é só o destino

insistindo em se fazer prevalecer



As pessoas vêm e vão,

hoje eu tenho essa convicção



Mas a muito custo eu aprendi

que não pode ser cada um por si



Então me recebe

como eu te receberia

no melhor dos momentos

ou no pior dos seus dias

Eu estou tão esgotado,

tudo é frágil demais
Eu posso não estar aqui
quando você olhar pra trás

Então hoje me abraça

como eu te abraçaria

no pior dos seus dias
Track Name: Eu Sonho Acordado
Música: Jair Naves e Renato Ribeiro

Letra: Jair Naves


Líder nato, um tanto irresponsável, mas tão persuasivo

Aprendiz ingrato, herdeiro perdulário, exala magnetismo

Depois de dez minutos preso, ele escapou ileso

sem um arranhão

instigando uma rebelião



Há um brilho fraco em seus dentes manchados, quebrados e pequenos

Ela reclama da sorte, diz que só se fode e age com destempero

“A gente se envolve e sem saber escolhe o vilão da vez”,

essa eu deixo com vocês


Saiba que eu não reajo bem quando gosto tanto de alguém

Tenha paciência comigo, não me priva de algo tão bonito



Me assegura que você jamais vai maldizer

o instante em que você se deu pra mim,

em que se anulou por mim


Uma voz celestial se torna rouca de tanto gritar
que prefere passar fome a depender de homem pra se sustentar
O perito em casos desse tipo tinha um veredicto a anunciar
nessa hora, eu optei por me ausentar



Nas três horas diárias que eu passo

espremido em um ônibus lotado

indo e voltando do trabalho

eu sonho acordado

com a vingança dos torturados,

com a mulher que vai envelhecer ao meu lado,

com o meu pai ressuscitado...



Enfim, eu sonho acordado